As rotas de migração mais perigosas do mundo

Em questão de dias, ocorreram duas tragédias mortais envolvendo pessoas que tentaram cruzar fronteiras internacionais.
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FRANCISCO COSTA
29 junho 2022
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Imigrantes e refugiados são resgatados depois de tentarem fazer a travessia no Mediterrâneo em embarcações superlotadas (Aris Messinis/AFP)
Na sexta-feira (24/6), pelo menos 23 pessoas morreram quando uma enorme multidão tentou atravessar uma cerca na fronteira do Marrocos para o enclave espanhol de Melilla, no norte da África. Três dias depois, nos Estados Unidos, a polícia da cidade de San Antonio encontrou os corpos de pelo menos 46 pessoas dentro de um caminhão abandonado.
O número de travessias nas maiores rotas de migração do mundo parece estar aumentando após os efeitos causados pela pandemia de covid-19, que levou vários países a introduzir restrições rígidas de entrada.
Isso possivelmente resultará em um número crescente de mortes, alertam especialistas. A Organização Internacional para as Migrações (OIM), uma agência da ONU, estima que desde 2014 quase 50 mil migrantes morreram ou desapareceram tentando chegar a destinos como os EUA ou a União Europeia. A agência acredita que o número real de mortos e desaparecidos pode ser ainda maior.
Mas quais são as rotas mais perigosas do mundo para os migrantes? E por quais motivos?
Mediterrâneo Central
Segundo a OIM, esta é a rota mais mortal do mundo para os migrantes. Estima-se que mais de 19,5 mil pessoas morreram tentando atravessar o Mar Mediterrâneo do norte da África para a Europa desde 2014.
As tentativas de travessia geralmente ocorrem em embarcações improvisadas e superlotadas, como botes de borracha, que tornam a viagem perigosa e potencialmente mortal.
As embarcações são frequentemente pilotadas por gangues criminosas e traficantes de pessoas.
Na Tunísia, que ao lado da Líbia é o principal ponto de partida para os migrantes que tentam chegar à Europa pela rota do Mediterrâneo central, há até um cemitério reservado para aqueles que se afogam no mar.
"Ver esses túmulos aqui me deixa muito triste", disse Vicky, uma imigrante nigeriana que espera fazer a viagem partindo da Tunísia, à agência de notícias AFP, enquanto visitava o cemitério.
"Quando vejo isso [as sepulturas], não tenho mais certeza de que quero fazer a travessia marítima", acrescentou.
Agências como a OIM temem que outros migrantes não sejam dissuadidos.
"As partidas de migrantes no Mediterrâneo central continuam. A maior preocupação é o número continuamente alto de mortes nesta travessia marítima mais perigosa do mundo. Continua a ceifar vidas na ausência de ações concretas dos Estados", disse Safa Msehli, porta-voz da OIM.
A Frontex, a Agência Europeia da Guarda Costeira e de Fronteiras, informa que quase 300 mil pessoas foram resgatadas tentando usar essa rota desde 2015.

Rotas internas africanas
Para muitos migrantes africanos, o sonho de chegar à Europa começa com uma viagem pelo próprio continente que muitas vezes envolve uma longa travessia do deserto do Saara, a caminho dos países do norte da África.
As duras condições ambientais são uma grande ameaça: a OIM estima que a travessia do Saara foi responsável pela morte de quase 5,4 mil pessoas entre 2014 e 2022.
"No deserto, você vê pessoas morrendo. Alguns morrem porque ficam sem energia. Outros, de sede", disse Abdullah Ibrahim, um migrante, à agência de notícias AFP sobre sua experiência de travessia.
Outra grande ameaça para os migrantes são as muitas gangues de tráfico de pessoas que atuam na região.
"A violência nas mãos de contrabandistas, traficantes e oficiais de fronteira na região também representam uma proporção significativa das mortes nas rotas de migração registradas no deserto do Saara", assinalou a OIM em seu relatório mais recente sobre o assunto.
Cruzamento da fronteira EUA-México
Embora as rotas de migração nas Américas não sejam apenas para chegar aos EUA, esse é o objetivo final para a maioria das pessoas que procuram um novo lar na região.
A fronteira entre os EUA e o México apresenta um grande desafio: a região é famosa por sua geografia inóspita, incluindo regiões desérticas, e os migrantes muitas vezes tentam atravessar para os EUA pelo perigoso rio Rio Grande, que corre ao longo de parte da fronteira.
O afogamento é uma das principais causas de morte nessa rota, que a OIM estima ter tirado a vida de mais de 3 mil pessoas desde 2014.
Aqueles que tentam evitar os perigos naturais, escondendo-se em veículos, enfrentam perigos diversos, como os que levaram às mortes em San Antonio.
"Recentemente, houve outros incidentes com grande perda de vidas nas rotas de migração para os EUA", disse Safa Msehli, porta-voz da OIM.
Em dezembro de 2021, 56 migrantes morreram em Chiapas, no México, depois que o caminhão em que viajavam caiu.
"A OIM continua preocupada com os perigos de migrar da América Latina para os Estados Unidos", acrescentou Msehli.
Rotas na Ásia
A OIM diz que mais de quatro em cada dez migrantes em todo o mundo em 2020 nasceram na Ásia, e o continente tem várias rotas migratórias principais.
Segundo a agência da ONU, quase 5 mil morreram ou estão desaparecidos na Ásia nos últimos oito anos.
A maioria dessas mortes envolve migrantes rohingya e de Bangladesh usando rotas marítimas que cruzam a Baía de Bengala e o Mar de Andamão para alcançar segurança em países vizinhos, ou mesmo para tentar chegar à Europa.
As dificuldades que enfrentam durante as travessias podem ser extremas.
"Estávamos com fome. Não tinha o que beber, não havia água potável. Não havia comida, nem arroz, não podíamos comer. Foi assim no mar por um mês", disse o refugiado rohingya Muhammad Ilyas, de 37 anos, à agência de notícias AFP depois de ser resgatado pela marinha indiana após um colapso no barco em que viajava.
Como em outras rotas, esses migrantes também são frequentemente vítimas de exploração por gangues de traficantes de pessoas.
Outra rota problemática é a fronteira entre o Irã e a Turquia, que viu um fluxo sem precedentes de migrantes afegãos desde que o Talebã retomou o controle do Afeganistão em agosto do ano passado.
A agência de refugiados da ONU (Acnur) diz que mais de 2 milhões de afegãos estão registrados como refugiados no Irã e em países vizinhos. (BBC Brasil)
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