Amazônia Real: A fome pelo ouro do rio Madeira

Reportagem especial e investigativa revela os bastidores da exploração de ouro no coração da Amazônia
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FRANCISCO COSTA
5 junho 2023
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Cerca de 26 balsas de garimpo ilegal de ouro em atividade na chamada “fofoca”, no rio Madeira, nas proximidades da capital Porto Velho (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real).

É domingo em uma “fofoca” do rio Madeira. Dispostas uma do lado da outra, as balsas formam uma alongada plataforma, onde é possível caminhar de ponta a ponta. Estão ancoradas por cabos de aço e cordas resistentes para evitar que a força das águas, a correnteza ou a chuva arrastem tudo para as profundezas. Os garimpeiros aproveitam o dia para fazer pagamentos, contando dinheiro vivo sem cerimônia, saborear um churrasco, tomar cerveja e ouvir música alta. Enquanto a comida não fica pronta, os que estão com o “serviço” atrasado usam o período da manhã para separar algum ouro da lama ou limpar o equipamento para o batente da semana seguinte. No garimpo, as máquinas operam dia e noite, expelindo uma nauseante fumaça de diesel queimado. Mal dá para sentir o cheiro da carne sendo assada.

É pelo sarinho, um objeto em forma de roda com uma manivela grande de madeira, que se controla a mangueira de oito polegadas jogada no fundo do rio Madeira. Dele se suga a água barrenta, os sedimentos e, com sorte, algumas partículas de ouro. Todo esse líquido passa por uma esteira, onde estão carpetes aveludados que fazem a filtragem e possibilitam que pedrinhas de ouro puro sejam retidas. É nessa etapa que os garimpeiros despejam o mercúrio nos tapetes. O metal pesado serve para facilitar a separação dos resíduos e a visualização do dourado do minério precioso. Logo após, essa mesma água contaminada com a substância é devolvida ao rio, porém transformada no altamente tóxico metilmercúrio.

As balsas são autênticas casas-flutuantes, e nelas moram famílias inteiras. A imigrante cearense Maria Selma da Silva, de 56 anos, vive com o marido no seu imóvel feito de madeira, onde no andar de baixo se faz a extração ilegal do ouro e no superior se vive como em qualquer outra casa. A estrutura tem pequenos cômodos, banheiro e paredes sem pintura. Há lugares individuais para dormir, comer e uma cozinha simples. Rústico, mas impecavelmente limpo. Nos dias quentes, o teto de zinco aquece o local como uma fornalha.

Na “fofoca” em que a reportagem da Amazônia Real encontrou a garimpeira, havia outras 26 balsas, com uma média de até cinco pessoas morando em cada uma delas. Maria Selma é uma “mandadora”, que na linguagem do garimpo é quem controla a operação. As mãos dela já perderam a suavidade, ficaram grossas em razão do ofício. Seu rosto ganhou marcas do tempo e do sol, que fustiga na região Norte. Ela cuida desde a extração do ouro até lavagem de roupa, limpeza do lugar, compra de mantimentos, controle financeiro e faz a manutenção do motor quando o companheiro não tem condições. Diferente de outras balsas, ela trabalha apenas com o marido. Prefere não contratar mais pessoas. Assim, evita pagar comissão que oscila entre 20% e 30% do lucro. A garimpeira lamenta não ter iniciado a atividade quando houve a última corrida do ouro, nos anos 1980, época de rápida valorização na compra e venda do minério. Na década seguinte, os depósitos de fácil extração de ouro já davam sinais de declínio. 

O casal de garimpeiros precisa trabalhar uma jornada quase ininterrupta, já que eles se revezam ao longo do dia, para poder lucrar cerca de 3 mil reais por semana. É uma fortuna, se comparada com os 1.302 reais que ganha um rondoniense por mês. Maria Selma comenta que esses anos todos de labuta não lhe trouxeram riquezas. “Quando entrei pro garimpo, já estava na fase mais ruim de ouro. Eu só tenho minha balsa e um carrinho. Minha casa, quando eu vim pro garimpo, eu já tinha, né?” A atividade lhe permite ficar de três a seis meses flutuando no rio Madeira, e o restante do tempo na outra casa em terra firme.

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